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dicas do erasmo

A História da Pornochanchada

O dia em que Zé trocou o “caixão” pelo “colchão”
O cineasta José Mojica Marins ficou conhecido nacionalmente - e, depois, mundo afora - pelo seu personagem Zé do Caixão, protagonista de filmes de terror de baixo orçamento que ousaram inaugurar um gênero até então inimaginável no cinema brasileiro. Desde seus primeiros filmes, Mojica abusava do erotismo, colocando mocinhas nuas em profusão, muitas vezes tratando-as com brutalidade e um machismo descarado. A platéia, obviamente, adorava. Nos filmes “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, “Pesadelo Macabro” e “Ritual dos Sádicos”, feitos entre 1968 e 1969, o diretor misturou terror com taras sexuais, como estupro, necrofilia, sadomasoquismo e submissão. Porém, a censura imposta ao filme “Ritual dos Sádicos”, em 1970, forçaria José Mojica Marins a mudar completamente os rumos de sua carreira.

No começo da década de 70, sem dinheiro e sem rumo, Mojica aceitou aparecer como ator em filmes de outros realizadores, que renderia atuações elogiadas como a do faquir em “O Profeta da Fome”, pela qual foi indicado ao troféu Urso de Ouro no Festival de Berlim. Mojica também começou a trabalhar como diretor contratado para outros produtores. O sucesso mundial de “O Exorcista”, em 1973, motivou o produtor Anibal Massaini a investir numa imitação brasileira. Na condição de único representante do cinema de horror no país, Mojica foi a escolha óbvia do produtor, resultando no excelente “Exorcismo Negro”, lançado em 1974. Porém, no mesmo ano o cineasta seria obrigado a tentar um tipo de cinema bem diferente…
O produtor Augusto de Cervantes, um velho amigo de Mojica desde o início de sua carreira, havia decidido investir em algumas pornochanchadas. Cervantes queria aproveitar a onda de comédias eróticas que vinha rendendo muita grana aos produtores, em realizações baratas, populares e de fácil realização. Mojica aceitou assumir o posto de diretor, com a condição de poder assinar sob pseudônimo. O primeiro fruto dessa parceria foi a comédia “A Virgem e o Machão”, com direção creditada a J. Avelar.
O filme chegou às telas paulistanas em agosto de 1974, estrelado por Aurélio Tomassini, Esperança Villanueva, Walter C. Portella, Vosmarline Siqueira e Milton, “o sensacional e satírico chimpanzé”. Conta a história de um médico machão, recém-chegado a uma cidadezinha do interior. Muito orgulhoso de sua capacidade para conquistar as mulheres, ele aceita o desafio de um rival e tenta seduzir a prostituta mais fria da cidade, chamada Maria Sorvete - pois é mais interessada em chupar picolé do que em fazer sexo. Quando as esposas traídas descobrem o plano dos maridos, decidem dar o troco na mesma medida, apostando qual conseguirá conquistar o médico garanhão. “A Virgem e o Machão” teve uma carreira relativamente lucrativa, motivando a realização de outra pornochanchada nos mesmos moldes.

O segundo filme de Mojica assinando a direção como J. Avelar chegou às telas em novembro de 1976. “Como Consolar Viúvas”, também produzido por Augusto de Cervantes, era estrelado por Vic Barone, às voltas com as viúvas Vosmarline Siqueira, Zélia Diniz e Lorenia Machado. O filme conta a história do golpista Aquiles d’Almeida Torres, um ator especializado em enganar pessoas ingênuas. Ao ler no jornal sobre o desaparecimento de três ricos empresários num acidente de avião, ele bola um plano para consolar as viúvas e ficar rico. Usando seus talentos dramáticos, ele se passa pelos falecidos e sacia a sede de sexo das três viúvas solitárias. Rene Mauro aparece no papel do “Padre Levedo”, uma paródia do popular Padre Quevedo, tão polêmico e contestado na época.
José Mojica Marins passou os próximos anos tentando retomar sua carreira como cineasta especializado em horror, determinado a concretizar a trilogia de Zé do Caixão. Porém, ele fatidicamente retornaria à produção erótica, desta vez de maneira extrema. No final de 1982, os cineastas da Boca do Lixo paulistana que insistiam em continuar trabalhando se viam obrigados a aderir à onda de produções de sexo explícito. Não foi diferente com Mojica, que no ano seguinte realizou “A 5ª Dimensão do Sexo”, produzido por seu velho amigo Mário Lima. O enredo mostra dois estudantes de Medicina que desenvolvem um elixir da luxúria e saem à caça da mulherada. Na reviravolta final, os amigos descobrem que são gays e só ficam excitados quando estão juntos. O filme, com cenas de sexo explícito enxertadas, chegou às telas em 1984, porém sem causar grande alvoroço.

As demais investidas de Mojica no sexo explícito já são bastante conhecidas do grande público e - por bem ou por mal - ajudaram a reconfigurar o cinema pornográfico brasileiro. Mojica, novamente formando parceria com Mário Lima, realizou o infame “24 Horas de Sexo Explícito”, lançado em maio de 1985, cujo enredo envolve a disputa entre três astros do pornô para saber qual deles é o maior comedor de todos. Mesmo fora de sua seara, o diretor decidiu acrescentar um tempero pessoal na produção e colocou anúncios no jornal recrutando as mulheres mais feias disponíveis no mercado. Além de atingir plenamente o objetivo, ainda fez o produtor faturar alto com a empreitada.

O êxito comercial de “24 Horas” motivou uma continuação, realizada pela mesma dupla, desta vez dobrando a maratona. Entretanto, “48 Horas de Sexo Alucinante”, lançado em abril de 1987, não conseguiu cativar o público e foi um fracasso retumbante, virtualmente encerrando a carreira de Mojica no pornô. O diretor eventualmente voltaria a contribuir com a pornografia na era do vídeo, quando participou do medonho “Tesão 3: Fetiches e Fantasias” (1999), dirigido por Carla Braga. A parceria entre José Mojica Marins e Mário Lima foi ressuscitada pela Sexy Brasil, que colocou o primeiro no papel do terapeuta sexual Dr. Bartolomeu, em três volumes da divertida série de sexo explícito “A Clínica das Taras”. Tanto no cinema erótico, com suas pornochanchadas, quanto como “expliciteiro”, Mojica deixou sua marca bem pessoal na produção nacional - um legado que jamais será esquecido pelos admiradores do erotismo.

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